s quatro estavam inquietos.
O primeiro deles, um homem alto, de pele negra e corpo forte
pelo trabalho na terra, andava de um lado para o outro da clareira.
― Gob, assim vai
fazer um buraco no chão. – disse o jovem elfo do mar que estava sentado a um
simples trono feito de corais. Sua voz era suave e murmurante.
― Não me mande ficar
calmo, elfo. – esbravejou Gob,
fuzilando-o com o olhar. – Sua aluna há muito tempo está pronta. De todos
vocês. E precisamos de todas juntas para o Despertar.
― Nikse está certo,
irmão. – Disse o jovem silfo de rosto fino e pálido. Sua voz era calma, mas ele
estava visivelmente preocupado. Gob tinha razão, precisavam dos quatro
elementos unidos para que Salamaiter fosse destruído. – Não podemos forçar a
situação.
― Além do mais, o
esquentadinho do grupo sou eu. – Zombou o homem de pele parda e longos cabelos
vermelhos como o fogo que estava sentado de modo largado em um trono de pedras
vulcânicas. – Vamos dar um jeito, Gob. Não se preocupe.
― Mas o inimigo não
vai esperar Djin. – Gob sentou-se em seu trono feito de galhos e folhas,
afundando o rosto em uma das mãos. Os quatro ficaram em silêncio.
Aquilo era uma corrida contra o tempo e tudo parecia estar
caminhando para um rumo incerto.
Sentado tranqüilamente em seu trono de videiras, o belo silfo
admirava um rouxinol que acabara de pousar em seu braço. O pássaro trinou
suavemente, como se conversasse com ele. – “Ela recebeu o seu presente, meu
querido Gob?”
― Sim, recebeu... Mas
não o abriu. – Gob estava visivelmente cansado.
O silfo mostrou um sorriso delicado para seu irmão Elemental.
– Então você deve entregá-lo pessoalmente. – Todos voltaram o olhar para o
silfo, como se este tivesse proferido uma maldição, mas ele não se abalou.
― Paralda eu... –
Começou Gob. – Eu não posso... – O outro apenas sustentou o seu olhar, sorrindo
ainda mais. Os dois ficaram um tempo em silêncio, apenas olhando um para o
outro, então foi a vez de Gob sorrir. – Você é um gênio, irmão.
Os outros apenas olhavam sem entender.
™˜
Os casais continuavam dançando, uma música maravilhosa atrás
da outra e Sibelle só havia se levantado para beber algo. Já estava começando a
se sentir ridícula. Quase três horas de festa e ninguém havia se aproximado.
Não que dançar com um desconhecido fosse importante; de certa forma, ficara
aliviada por isso ainda não ter acontecido, mas bem lá no fundo, doía um pouco
saber que não chamara a atenção de alguém. Olhou para a própria mão,
analisando-a. Não havia nada de errado.
Ou havia?
Era uma mão normal, como qualquer outra mão. Unhas iguais às
outras. Não tinha dedos sobrando ou espinhas em seu rosto. De fato, Sibelle era
uma menina bonita, uma adolescente como qualquer outra, apenas não via sentido
em torrar sua mesada com bolsas e sapatos. Não usava as roupas da moda ou
pintava os cabelos. Sibelle era simplesmente Sibelle.
E talvez esse fosse o problema...
Cansada de ficar sentada, levantou-se timidamente, rezando
para que ninguém a visse, e caminhou colada à parede, até a porta de entrada,
permanecendo parada no meio das quatro deusas, apenas observando o jardim. Era
tão grande e bonito. Impecável. Os jardineiros deveriam ter bastante trabalho,
principalmente na Primavera.
Ela sentiu o vento soprar suavemente, fazendo balançar as
pontas de seu velho vestido verde.
― Lindo, não? –
Sibelle tomou um susto. Virou-se rapidamente para descobrir quem estava ali e
viu um homem mais alto do que ela, de pele negra e parte da face oculta por uma
máscara que parecia ser feita de lascas de madeira. Estranho, pois o baile não
era um masquerade. Ou será que era?
Sibelle já não se lembrava, mas de qualquer forma, suas roupas também eram
diferentes. Parecia-se com uma armadura feita de cascas de árvore, que chamava
muita atenção, mas aparentemente, ninguém parecia estar interessado. Todos no
salão continuavam suas danças mecânicas. Sibelle o olhou e recebeu um sorriso
em resposta.
― Este jardim é
lindo, não acha? – Ele se aproximou dois passos. Ela continuava em silêncio,
apenas concordou timidamente.
― E você parece
gostar muito de plantas, não é? – O homem perguntou gentilmente e a garota
assustada apenas mirou-o de canto, seu coração martelando no peito. Olhava
nervosamente para os lados, tentando esconder a ansiedade, que o homem acabou
por perceber e, para acalmá-la, ofereceu-lhe uma rosa branca que, só depois ela
percebeu, ele tirara de lugar nenhum.
― Por favor... – ele
disse gentilmente. – Eu tenho algo de suma importância para transmitir à
senhorita.
Sibelle, temerosa, aceitou a flor, mas não abriu a guarda. O
homem fez uma profunda reverência e estendeu-lhe a mão, convidando-a para
dançar. Sem entender o que estava acontecendo, a garota aceitou o convite,
mesmo que implorasse a seus pés que parassem de se mover, e com o estranho
mascarado, dançaram sob a luz da lua.
― Por favor, preste
atenção, senhorita. – Ele disse seriamente entre os passos rebuscados que
Sibelle conseguia acompanhar como se fosse uma profissional. – A senhorita tem
uma missão muito importante a cumprir. O Mundo de Mirror está em perigo e somente
você e mais três outras garotas corajosas podem nos ajudar.
Sibelle não sabia o que fazer, mas o homem à sua frente
cessou a dança e permaneceu parado à sua frente, apenas sustentando o seu olhar
e sem se desviar, tirou algo de dentro da capa e depositou na mão da garota.
Era uma esfera de vidro, pouca coisa menor que uma bola de tênis e, dentro
dela, a terra se movimentava, era como um redemoinho que não tinha começo e não
tinha fim.
™˜
Estava escuro e um gotejar solitário se ouvia ao longe. Algo
se movia sorrateiramente entre os seixos, aproximando-se de uma estranha pedra esculpida
em forma de trono, e parecia haver alguém escondido ali.
― Meu mestre. Meu
mestre. Soube que os reis encontraram carne fresca...
Não obteve resposta, olhou, então, para o espelho que se
ostentava à sua frente vendo uma patética cena da garota dançando com o homem
mascarado. Apertou os olhos para a imagem que se projetava ali, demorando-se na
garota. Conhecia-a de algum lugar. Aqueles longos cabelos castanhos lhes eram
estranhamente familiares.
™˜
De um sobressalto, Sibelle abriu os olhos assustada. Levou a
mão ao rosto e sentiu algo áspero por sobre os olhos, então foi se lembrando;
sua máscara.
Máscara? Não pusera máscara alguma. Ou pusera?
O quê?
Olhou para a janela. A enorme lua cheia banhava o quarto com
sua claridade perolada e percebeu que ainda estava em sua cama. Caíra no sono e
perdera o baile no fim das contas.
Mas não fazia diferença.
Sentou-se corretamente e, ao se espreguiçar, sentiu algo liso
e duro em sua mão direita, então olhou para baixo. Entre seus dedos ela pôde
ver a pequena esfera que lhe fora dada em seu sonho. Reparou que terra se movia
de um lado para o outro. Era loucura, mas sentiu como se ela estivesse gritando. No chão, perto da cama,
estavam as folhas que envolviam o presente.
Estava aberto.
Estava em suas mãos.
Estava vivo.